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Pessoas que não se identificam com o gênero sexual biológico com o qual nasceram são intituladas de acordo com a medicina como "transgêneros". Assim como temos certeza da nossa cisgeneridade quando nascemos e nos identificamos com nosso corpo, pessoas trans partilham dessa mesma certeza ao não se reconhecerem. Conversamos com Elaine Horita, mãe de uma menina trans de 9 anos, que nos respondeu 10 perguntas sobre como foi e tem sendo essa descoberta e a melhor maneira que encontrou para lidar com a situação da melhor maneira possível para a filha.

1 - Como eram essas demonstrações e gostos, tinha alguma atitude ou característica específica?

"Desde bebê, ele (pronome adequado ao gênero do período), se interessava por sapatos femininos, sempre reparando e não eram todos que ele me deixava vesti-lo.
Um exemplo era um coturno de pano, que toda vez que ia colocar ele encolhia o pezinho e depois ficava tentando tirar, aí eu o distraía e conseguia.
Meu cabelo era longo, e quando ele tinha um ano e quatro meses, cortei curto. Ao começar a falar, com dois anos e meio, me questionou porque tinha cortado, e me falou que gostava de cabelos longos. Com pouco mais de idade, cortar cabelo virou um tormento porque ele queria deixar o cabelo crescer, porque queria usar como menina.
Sempre implicou com minha unha, já que raramente as pinto, ou deixo crescer.
Antes de falar, puxava as mãos das minhas irmãs para me mostrar as delas e logo que aprendeu, reclamava que eu deveria pintar minhas unhas, assim como pedia para pintar as dele.
Nunca se interessou por carrinhos ou super heróis. Eram animais e brinquedos femininos, como Poly, Barbie e Monster High.
Dos animais, nunca gostou de dinossauro, ou animais mais masculinos. Sempre queria os mais coloridos ou fofinhos, linha para o público feminino, como Little Pet Shop e Sylvanian Families, isso com 4 - 7 anos. Quando menor, chorava, querendo estes brinquedos, até que comecei a ceder, afinal, criança precisa brincar.
2 - Como os familiares reagiram?
A maioria foi pesquisar na internet e começaram a me mandar videos sobre o assunto, que explicavam sobre a identidade de gênero e a importância do acolhimento.
No geral, meus familiares sabiam das preferencias do meu filho, não foi novidade. Muitos inclusive, o permitiam vivenciar o feminino com abertura e tranquilidade, até o presenteava com itens femininos.
Porém ao formalizar que aceitei a situação, alguns ficaram abalados, alguns daqueles que enquanto era brincadeira, estava tudo bem, e ao levar a sério a necessidade da criança, me retornou como um "meus pêsames", mas que o aceitaria como ele era e queria ser.
3 - O que você tem a dizer para mães que desconhecem a questão de identidade de gênero se sensibilizarem minimamente?
Conheci verdadeiramente o preconceito quando ele bateu na minha porta.
Para as mães que desconhecem o assunto, sugiro serem humanas e se colocarem no lugar dessas famílias e dessas crianças que tem tão forte uma demanda que contraria o que é socialmente comum, aceito. Convido a se abrirem para conhecer um pouco mais dessa realidade, que não é doença física, mental ou emocional. Há ótimos vídeos na internet, filmes, que apresenta essa realidade sobre a visão da família e do próprio indivíduo, que no fundo só quer ser aceito como é, e o quanto essas pessoas, por preconceito, sofrem.
A partir do momento que uma mãe se capacita em assuntos diversos como este, ela pode contribuir em uma mudança social, pois poderá educar o filho com abertura para aceitar, incluir o diferente e aí sim teremos uma sociedade menos preconceituosa e restrita como atualmente.
4 - Como está sendo o tratamento com pediatra? O profissional passou alguma recomendação ou deu algum “pitaco”?
A Pediatra, assim como o psiquiatra, tratam com naturalidade esta questão de identidade de gênero e a preocupação de ambos é a segurança emocional da criança, frente aos ambientes que frequenta, para que esta tenha saúde mental, emocional.
Então, os cuidados são orientações para proporcionar um ambiente seguro, livre ao máximo possível de preconceito e intolerância, para que a criança se desenvolva em um ambiente saudável como qualquer outra criança.
Como minha filha é muito nova, completa agora 9 anos, o acompanhamento será em relação a entrada da puberdade, através de radiografia das mãos, de ano em ano, pois se ela continuar segura se sentindo menina, querendo ser vista como menina, teremos que entrar com os bloqueadores hormonais para posteriormente entrar com o tratamento hormonal feminino, para que seu desenvolvimento siga ao gênero que se identifica.
”Risco de mutilação de pênis aos 3 anos, em vários momentos.”
5 - Como isso aconteceu? Ela chegou a se machucar?
Da primeira vez foi mais sério, pois quando vi, ele estava pelado com a tesourinha infantil na mão, e ao me ver, falou puxando o pipi, que ia cortar.
Ele era muito pequeno, ainda não tinha três anos completos.
Expliquei que não podia cortar, que doía muito, iria machucar.
Das outras vezes ele me falou que estava errado e que não queria ter pipi e que precisava cortar, isto acontecia principalmente após o banho.
Explicava que o pipi estava certo, que era importante, que era bonito e que a gente tinha que trata-lo bem.
6 - Como é feita a pesquisa sobre os processos cirúrgicos? Dicas de canais? Redes apoio? Onde são buscadas informações?
Redes de apoio, o melhor que localizei até o momento é o Mães Pela Diversidade, vejo muita troca de informações, inclusive referencias de médicos que fazem as cirurgias, mas como minha filha é nova e poderá entrar com o tratamento hormonal, e por estar com acompanhamento psicológico pode ser que não tenha necessidade para uma redesignação de sexo.
Sobre cirurgias não tenho grandes conhecimentos.
Canais que conheço são USP, no ambulatório de gênero e a Unicamp -  Ambulatório de Psiquiatria sobre identidade de gênero que atendem crianças até 12anos ou CAISM, onde se realizam cirurgias de redesignação de sexo.
7 - Em algum momento houve o questionamento da possibilidade de ela ser um menino gay? Como você teve a certeza da transexualidade?
Eu ficava muito confusa sobre esta questão do meu filho ser gay, pois ao mesmo tempo que ele queria se vestir de menina, ele era muito cortês e encantado com as mulheres. Hoje aprendi que a identidade de gênero não tem relação com sexualidade.
Compreendi que a questão de gênero é como me sinto ao me vestir, ao me identificar como pessoa na sociedade, e os transgêneros se sentem bem se vestindo e se apresentando como o gênero oposto ao da genital de nascimento.
Ser gay ou lésbica, a homosexualidade, normalmente é revelada no período da adolescência, quando as alterações hormonais acontecem e por consequência o libido, e a atração sexual por um determinado gênero aparece. Vejo muitos casos de adolescentes que se descobrem homosexuais e posterior reconhecem que se sentem melhor se assumindo no sexo oposto, isto é, sendo trans.
É meio louco para quem não tem contato com esta realidade. Imagine, minha filha trans (nascida menino), pode no futuro se descobrir homossexual e namorar uma menina. Elas serão lésbicas, mesmo ela sendo uma menina de pipi.  Doido né?
Então, essa é a questão, a gente julga doido o que não nos é comum e muitas pessoas tem repulsa pelo desconhecido.
Da Transexualidade de minha filha, eu não tenho certeza. Minha filha hoje se reconhece e fica feliz em ser menina, e para minimizar o impacto emocional do esforço em ser aceita e reconhecida como menina, eu acolho e aceito, mesmo sabendo que com o desenvolvimento, ela pode mudar de ideia e resolver ser cis, que significa se reconhecer no gênero de sua genital, menino. Ou há outras possibilidades, como a pessoa que prefere ser neutra, ou que uma hora se apresenta como menino, outra como menina, entre outras situações que eu mesma desconheço a fundo, mas de longe escutei falar.
8 - que motivou a saída da outra escola?
Na outra escola, tradicional, em uma localidade culturalmente restrita, ele sofria bulling por gostar de brincar com brinquedos de menina. Era chamado de menininha,  nojento, esquisito e isto o frustava.
A escola tentou intervir por diversos momentos, porém o público tem uma cultura machista predominante. Para mudar uma cultura, é necessário um amplo movimento, apenas uma escola engajada, sozinha, não consegue, além do tempo que isto leva, e por isso, preferimos mudar de escola, pois esta situação abalava o emocionalmente.
9 - Você tem alguma dica para quem desconfia que tenha um filhx trans? Algo que talvez você gostaria de ter ouvido antes de ter certeza que sua filha era trans?
A dica talvez seja muito difícil, porque foi difícil para mim que me julgava mente aberta, como a maioria das pessoas, mas vamos lá:
-- Permita que seu/sua filha brinque, seja do que for, quantas vezes quiser, seja de um personagem feminino ou masculino.
Não tenha vergonha de sair com elx em publico, em locais seguro para vcs, vestido de fantasia x ou y. Deixe a criança esgotar as possibilidades dela, não pense que vc esta incentivando ao permiti-la brincar, vivenciar o lúdico.
A questão de identidade de gênero é muito profunda, não é a exaustão de uma brincadeira que fará seu filho/a  X ou Y, mas talvez, se quando pequena/o eles esgotarem a curiosidade, agilizará o processo de descoberta de quem realmente não são, pois ficar na evitação, pode gerar uma curiosidade maior na criança, ou uma tristeza profunda, caso ela seja trans.
Esta é minha percepção.
Bem, talvez, seria bom eu ter sido questionada sobre o meu preconceito em não permitir que minha filha explorasse tando o mundo cor de rosa quanto ela gostaria.
Talvez, se meu preconceito tivesse sido colocado em xeque antes, poderia ter baixado a guarda muito mais cedo, e evitaria maiores tristeza a ela.
10 - E em relação aos banheiros públicos, de shoppings e restaurantes, como funciona?
Banheiros no geral, sendo este de escola, faculdade, ou locais públicos, é de direito do indivíduo utilizar aquele de acordo com o reconhecimento do seu gênero, conforme Resolução 12 de 2015.
Infelizmente ainda há mal compreensão do que é um transgênero, isto é, uma simples mulher com pipi, e um homem de verdade com vagina, pois na realidade é isso que são. Não são maníacos, ou criminosos, são pessoas, como eu, como você, que vão ao banheiro para suas necessidades fisiológicas e para se ajeitar.
Minha filha segue usando o banheiro feminino para a própria segurança, pois ela se veste de menina, não a cabe o banheiro masculino.
Na escola, infelizmente por desconhecimento de pais sobre o transgêneros e para evitar maior conflito, atualmente ela utiliza o banheiro das professoras, que foi muito bem aceito por ela.