Minha filha teve traumatismo craniano ao cair do balanço do parquinho

"Ele nos disse que o exame confirmou um traumatismo craniano com hemorragia interna e hematoma subdural (por trás do crânio)"

Publicado em 12/08/2016 às 14:25 | Categorias: , , , , , , ,
20.02.2018 - Resolvi escrever para outras mães um relato pessoal sobre quando minha filha teve traumatismo craniano ao cair do balanço do parquinho. Isso porque tal episódio trouxe muitos aprendizados tanto para mim, quanto para a minha família. O que era para ser mais um domingo descompromissado e curtindo a nossa casa foi, na verdade, o dia de um trauma que hoje me possibilita dar uma orientação a outros pais: ninguém melhor do que nós mesmos para conhecermos os nossos filhos e sabermos quando algo está errado com eles. Ninguém! Por isso, mesmo que o diagnóstico médico diga que tudo está bem quando nossas crianças passam por uma situação de risco à saúde, devemos persistir em uma nova avaliação caso notemos algo de errado com elas. selo materia mae amiga  

Claudia Lodi Mãe da Nicole, de 6 anos, e da Carol, de 8 meses

♥ "Ela me ensinou que conhecer os nossos filhos e notar qualquer sinal anormal no comportamento deles pode salvá-los!"

 

Minha filha teve traumatismo craniano ao cair do balanço do parquinho

Naquele domingo, resolvemos ficar em casa, não sair para almoçar e nem para nos encontrarmos com a família ou os amigos, como sempre fazemos aos finais de semana. Almoçamos tarde e, logo em seguida, meu marido desceu com as meninas e suas bicicletas para brincarem no parque do condomínio. Eu optei por ficar em casa. Depois de um tempo, meu marido subiu com a Nicole (6 anos) no colo, deixando todos os pertences no parque do prédio: as bicicletas, bonecas e a Caroline, nossa filha mais nova. Ele estava nervoso e a Nicole assustada, quieta. “Mas o que aconteceu?? Me falem logo!", eu perguntei. Eles estavam no parquinho, a Carol no balanço próprio, aqueles que prendem na frente, e a Nicole e sua amiguinha ao lado. Meu marido estava abaixado balançando a menor, e com a mão na perna da Nicole, que se segurava com as duas mãos na corda do balanço, as pernas juntas e esticadas para frente, o corpo inclinado para trás, conversando e PARADA (isso mesmo, parada! Não estava balançando). De repente, o bumbum dela escorregou, fazendo-a cair para trás, com a nuca direto no chão. Como ela segurou firme na corda, a cabeça foi o primeiro membro do corpo que bateu no chão de concreto. Todo o parquinho tem grama sintética, menos onde ficam os balanços.
O barulho foi muito forte. Meu marido pensou que o assento do balanço havia quebrado ao meio, pois o barulho parecia ser de madeira partindo ao meio, mas era, na verdade, o barulho da cabeça da minha filha batendo no chão.
Naquele momento, o impacto fez somente um galo enorme na cabeça da Nicole. traumatismo craniano2Mesmo assim, fomos para o Pronto Atendimento imediatamente. Enquanto ela ficava cada vez mais sonolenta, eu me esforçava para mantê-la acordada. Chegando ao PA, ela foi atendida e a médica fez aquelas perguntas padrões “vomitou? chorou? dormiu? qual a altura da queda?” Mas o caso era diferente. Ela não havia vomitado ou chorado, e a queda ocorreu de aproximadamente 50cm de altura. Um raio-x foi feito, mas os médicos não identificaram nada no exame. Então a Nicole foi liberada e nós, orientados a observá-la por 24 horas e medicá-la com analgésico, caso ela sentisse dor. Eu comentei que ela estava muito sonolenta, o que me preocupava, mas a médica residente alegou que era porque ela havia brincado muito e estava cansada. Só que eu conheço a minha filha: ela não dorme à tarde. Ela não estava bem. Fomos para casa, a Nicole estava quieta e só queria dormir, mais nada. Ficamos a observando muito preocupados, embora tentássemos manter a rotina normal dela. Mas ela parecia assustada! Quando me pediu mais uma vez para dormir, eu deixei, afinal, pensamos que ela estava assustada mesmo devido ao barulho, à correria e ao nosso desespero. Além disso, ela não queixou-se de dor ou qualquer outro sintoma considerado “preocupante” nesse caso. No dia seguinte, eu a acordei, perguntei se estava tudo bem e se ela queria ir para o Inglês. Como ela disse que sim, pedi para que a observarem na aula e, aparentemente, tudo estava bem. Saímos do inglês e fomos almoçar para ir à escola. Percebi que ela estava “estranha”: lenta, demorava muito para me responder, às vezes em reflexo nas suas atitudes. Mas ainda assim ela não reclamava de nada! Terminado o almoço, ela foi ao banheiro do restaurante. Quando abriu a porta e se deparou com uma mulher saindo, ela  ficou parada, sem reação, impedindo a passagem da moça, sem saber o que fazer. Logo pensei: “Ela não é assim, tem algo estranho!" Quando eu falava com ela, ela não me respondia. Por isso, eu tinha que chamá-la duas ou três vezes e só então ela respondia “eu ouvi, mãe”. De forma lenta, como se demorasse para que as informações chegassem ao cérebro dela. Ela quis ir para a escola. Mais uma vez, pedi para a observarem e me relataram, durante a tarde, se ela estava passando bem o dia, fazendo as atividades e se algo de diferente no comportamento dela havia chamado a atenção dos colegas ou professores.
Quando a Nicole se deitou para dormir, começou a chorar muito de dor, colocando a mão na cabeça e dizendo que doía demais.
Lembrei da médica dizendo: “Se tiver dor, medique com analgésico”. No dia seguinte, terça-feira, saí bem cedo para trabalhar e ela ficou dormindo na avó. Eu passaria na hora do almoço para levá-la à escola. Liguei para saber como tudo estava e ela só dormia. Acordou para fazer lição, terminou e dormiu novamente. Ela não estava normal! Não era ela. Mesmo sem vômitos e outros sintomas, não podia ser normal isso tudo. Por isso, não esperei mais nem um segundo para levá-la ao hospital para uma nova avaliação. Ao atender a Nicole, a médica já pediu uma tomografia. Demorou muito para nos chamar novamente e, a essa altura, eu já sentia que algo estava errado. Finalmente a médica nos chamou e disse que tinha dado uma “alteração importante” no exame e, por isso, seria necessária outra tomografia, agora com contraste. Eu já tremia toda! Não estava nada bem, mas não podia transparecer nada a ela, pois ela tinha que manter-se firme e forte. Quando saiu o resultado do segundo exame, a pediatra nos chamou e, junto a ela, estava o neuropediatra. Meu coração partiu. Eu sabia que algo estava errado. Ele nos disse que o exame confirmou um traumatismo craniano com hemorragia interna e hematoma subdural, que ocorre por trás do crânio. As mais duras palavras que eu já ouvi em toda a minha vida. “E então, doutor? O que vai acontecer?”, e ele me respondeu que já haviam acionado o neurocirurgião chefe, que estava a caminho para conversar conosco. A Nicole me perguntava “Mãe, o que vai acontecer comigo?”, e eu respondia “Filha, eu não sei ao certo, mas você terá que ser muito forte!”. Colocaram-na numa sala de observação. Logo veio a pediatra e perguntou qual o último horário que ela havia se alimentado, então eu respondi pausadamente e gelada. Quando a médica completou dizendo que não era para ela ingerir mais nada, nem água, eu pensei: “vão operar a nossa filha”.
Daí em diante, meu chão sumiu. Eu fiquei anestesiada e não conseguia me colocar na realidade! Parecia que andava no ar, literalmente sem chão.
Tudo parecia passar em câmera lenta bem na minha frente, ao mesmo passo em que tudo estava sendo rápido demais. Pediatra, enfermeira, dois neurologistas, o neurocirurgião chefe e o anestesista. Já estavam tirando a roupa dela para que ela vestisse um avental, enquanto o neurocirurgião explicava: “foi uma decisão muito difícil, mas não temos dúvidas de que a cirurgia tem que ser AGORA”. Fomos todos juntos para o Centro Cirúrgico. A Nicole adentrou aquela sala sabendo de exatamente tudo, pois assim seria mais fácil dela entender a situação e colaborar com o processo de recuperação. Enquanto a cirurgia acontecia, apenas uma parede dividia o espaços entre ela e nós. A equipe foi maravilhosa! Não nos deixaram mais de 15 minutos sem notícias do procedimento. Após meia hora, começamos a ouvir um barulho de furadeira - o som mais perturbador que eu já ouvi. O procedimento demorou 1h30 e logo saiu o neurocirurgião chefe nos informando que a cirurgia havia sido um sucesso e a equipe estava “fechando” o local. A cirurgia foi feita a tempo, mas nas palavras do médico, se houvesse mais algum atraso, em questão de dias nós poderíamos tê-la perdido. O profissional explicou que havia sido aberto um buraco do tamanho de uma moeda de um real, para drenar a hemorragia, e, então colocaram uma placa no local. Além disso, ele nos confirmou que o barulho que ouvimos quando a Nicole caiu era o som do osso do crânio dela se abrindo. Quando a Nic voltou da anestesia, nós estávamos ao lado dela. Foi muito difícil vê-la daquela forma: cabeça enfaixada, com dreno, monitoramento cardíaco e de oxigenação, acesso na veia. Eram muitos fios.
Eu não saí da UTI. Não comi, não dormi, não tomei banho, não troquei de roupa: só fiquei ao lado dela.
traumatismo cranianoEla dormia demais (efeito da anestesia ainda), mas quando acordava, gritava de dor, me arranhava toda e pedia para eu fazer algo para ajudá-la. “Mãe, por favor, me ajuda! Faz alguma coisa!”. O sentimento de impotência era enorme nesse momento, pois nem a morfina era suficiente para fazê-la não sentir dor e eu, que estava ali, não podia fazer nada, por mais que ela me implorasse. Foram dois dias de UTI, mais dois dias no quarto. Nos quatro dias que se sucederam após a cirurgia, a Nicole sentia muita dor. A rotina era dormir, acordar, gritar de dor, tomar analgésico intercalado com a morfina, dormir de novo e logo recomeçava o ciclo. Cada vez que ela acordava com dor, eu chamava os médicos e segurava na mão dela. Os profissionais diziam que só faziam duas horas que eles a haviam medicado, mas a dor já era intensa. Foi quando comecei a chorar, tamanha angústia e impotência, e ela me disse: “mãe, você me pediu para ser forte, mas você não está sendo forte!”. Pronto! Minha filha me ensinando e me fortalecendo. Não derrubei mais nenhuma lágrima (pelo menos não frente dela, pois quando ela dormia eu ia no corredor e chorava muito).
Minha filha queria que somente eu ficasse com ela. Eu estava muito cansada, abatida, desestruturada emocionalmente, moída por dentro, mas tinha que estar ali e tentar ser forte.
Os médicos começaram a reduzir a morfina para que ela pudesse ter alta. Aos poucos, minha pequena foi reagindo e teve alta com indicação de repouso de 30 dias, bem no início das férias. Ao chegar em casa, a recuperação foi imediata. Estar no seu lar com a irmãzinha, receber visitas e ser paparicada fez com que ela rapidamente fosse melhorando. Uma semana após a cirurgia, fomos a uma consulta com o neurocirurgião que a operou. Ela foi recebida no consultório dele com beijos e abraço e, acredito eu, que até ele estava emocionado em vê-la tão bem e forte. Além desse episódio, ela recebeu muitas outras demonstrações de carinho durante esse tempo. Eram mensagens, áudios, cartinhas dos amiguinhos, presentes, visitas, flores, ligações... Percebemos o quanto a nossa filha é querida e também o quanto é importante ter apoio emocional. Foi importante saber que nossos amigos estavam lá fora no hospital, saber da quantidade de mensagens e pedidos de orações e de toda a ajuda recebida.
Eu acredito, definitivamente, que o amor, carinho e correntes positivas fez toda a diferença na recuperação dela e, é claro, para nos fortalecer nesse momento.
traumatismo craniano4Passado alguns dias, ela estava brincando em casa e eu falei para tomar cuidado com a cabeça, pois era recente a cirurgia. Ela me respondeu: “Mãe, esquece essa história! Isso já é passado!” Hoje a Nicole está 100% recuperada, sem sequelas, traumas ou medos. Absolutamente tudo normal. Ela não se preocupou com o cabelo raspado, com a enorme cicatriz na cabeça, em perder o Curso de Férias da escola ou em deixar de ir a algumas festas de amigos. Nada a abalou. Ela também não se importa em contar a história e até já voltou a brincar no balanço. O que ela nos ensinou? Que dói muito mais no adulto do que na criança; que é melhor focar no afeto recebido do que no problema em si; que amor, carinho e oração curam mais do que qualquer remédio; que o adulto também precisa lutar para ser forte; que entender tudo o que está acontecendo facilita a aceitação e o enfrentamento do problema; que a criança encara tudo de forma mais leve; que conhecer o filho e perceber qualquer sinal anormal pode salvá-lo; e que a recuperação da criança é muito mais rápida, sem dúvidas.
 
Os filhos nos ensinam constantemente e nos mostram o caminho, basta a gente se permitir!

Traumatismo craniano: Minha filha caiu do balanço do parquinho