O leite materno é vivo, tem movimento na composição dele, por isso ele é a melhor fonte de nutrição para o pequeno.
Publicado em 15/08/2019 às 14:06 | Categorias: Amamentação
Dra. Flávia Puccini
Fonoaudióloga, mestre em processos e distúrbios da comunicação pela USP, especialista em motricidade orofacial pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. Consultora de amamentação, laserterapeuta, especialista em dificuldades alimentares, fala, teste da linguinha e disfagia.
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Aleitamento materno: porque a amamentação é tão importante
Sabemos que a Organização Mundial da Saúde recomenda que o aleitamento materno seja exclusivo até os 6 meses de idade do bebê. Além do vínculo entre a mãe e o pequeno, o leite materno é vivo, tem movimento na composição dele, por isso é a melhor fonte de nutrição para o pequeno. O desenvolvimento da musculatura orofacial e o processo de desenvolvimento da boquinha da criança começa na amamentação, que exige uma série de movimentos complexos e vai refinando essa musculatura para se preparar para os alimentos. Ultimamente tenho visto vir mais à tona a realidade sobre amamentação: não é nada simples, muito pelo contrário. A ideia de que amamentar é algo natural e intuitivo e que, ao nascer, o pequeno já automaticamente vai saber o que precisa fazer para mamar é bem distante do que realmente acontece. É por isso que o tempo todo temos visto tristes depoimentos sobre o quanto é dolorido, frustrante e a culpa que sentem as mães que decidiram parar ou não conseguiram amamentar. [caption id="attachment_97821" align="aligncenter" width="540"]
Dra. Flávia Puccini - Fonoaudióloga e mestre em processos e distúrbios da comunicação (voz, fala e funções orofaciais). Foto de Marco Flávio.[/caption]
A grande questão é que, imaginem um seio machucado, com fissuras e feridas, e um bebê que precisa mamar em cerca de 2 a 3 horas...as fissuras são tratadas, a pega é avaliada e aparentemente está tudo certo, mesmo assim, o bebê continua machucando, continua não ganhando peso e não mamando direito. Em alguns casos essa dor fica tão insuportável que a mãe não tem mais condições de amamentar.
E é nesse momento que começam as frustrações e o sentimento de culpa. As mães chegam no consultório aflitas sempre pensando que o problema está com elas quando, na realidade, isso acontece na grande minoria dos casos. Sim. É claro que existem exceções, mas o problema, geralmente, não está na mãe e sim no padrão de sucção do bebê. Isso mesmo, não é nem a pega, e sim, a sucção.
No estudo de mestrado que realizei pela Faculdade de Odontologia de Bauru, em parceria com a Telemedicina da USP, vimos que o leite é extraído pelo vácuo criado na boca do neném através dos movimentos feitos pela língua, fazendo com que o leite seja transferido da mama para a sua boquinha. Por isso, a correção e prevenção de problemas dolorosos na amamentação, como os traumas mamilares, por exemplo, é feito pela avaliação e análise dos movimentos da linguinha do bebê e pela reeducação dessa movimentação.
O que acontece é que a maioria das mães ainda não têm acesso à informação de que os principais problemas de amamentação poderiam ser resolvidos por essa avaliação. Se o movimento é feito corretamente dificilmente vão surgir fissuras no seio da mãe. Além disso a produção de leite está diretamente ligada à demanda. Então se o bebê não esvazia todo o leite da mama, a produção diminui ou causa empedramento, e isso também depende dele estar sugando corretamente. Já a mastite é uma inflamação que acontece quando esse quadro é agravado.
É importante que as mães saibam o que fazer e a quem procurar quando precisarem de ajuda, porque é muito mais raro encontrar algum problema de amamentação que não tenha solução do que o contrário.
E quando acontece de não ser possível o aleitamento materno exclusivo também podemos encontrar outras maneiras que de acordo com as possibilidades, rotina e vontade de cada mãe, e tudo bem ser assim também. O mais importante é saber conciliar o desejo de cada mãe, o melhor para cada bebê e encontrar a melhor saída para cada caso. Não é uma mamadeira ou a impossibilidade de amamentar que vai fazer com que o vínculo entre a mãe e o bebê não aconteça.
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5 respostas que toda mãe tem que saber
Por que a amamentação pode não ser tão fácil como parece?
Em primeiro lugar eu acho que muitas mães de primeira viagem ainda não tem acesso à informação do quanto a amamentação pode não fluir tão naturalmente como pensamos que deveria ser e acabam não se preparando para o que pode vir pela frente. Demorar para pedir ajuda pode deixar que o sofrimento fique maior.
Qual melhor forma de preparar o seio para esse processo?
O próprio corpo já se encarrega da produção do leite e de preparar o peito para amamentação. Inclusive, utilizar alguns objetos antes de começar a amamentar, como a concha de amamentação, pode até prejudicar a produção do leite; hidratar demais pode deixar a pele mais fina e suscetível a fissuras e fazer estímulos intensos, com bucha, por exemplo, na região podem acelerar a produção de ocitocina e até mesmo levar a um parto prematuro.
Depois do nascimento é importante saber quais são as fases do leite: primeiro vem só o colostro, depois tem a descida do leite. Nesse momento é sempre bom a mãe massagear o peito antes de dar para o bebê e, caso ele esteja muito cheio é bom fazer ordenha de alívio para que fique um pouco mais flexível, assim é mais fácil do bebê abocanhar.
O que é a laserterapia? Quando realmente é indicada?
O laser é uma luz muito potente que ajuda na cicatrização tecidual do mamilo, por isso é muito indicado para cicatrização. Mas é importante ressaltar que ele não atua sozinho. Existe uma causa para que o bebê esteja machucando, então se não analisar e verificar qual é, de fato o problema, a fissura vai melhorar, mas o bebê vai machucar de novo. Se corrigir a sucção e aplicar o laser, a resposta é bem rápida.
Amamentar em livre demanda ou criar uma rotina, qual a forma mais indicada?
Depende muito de qual é o perfil dessa mãe, de como funciona a rotina dela. Não adianta a gente falar que o ideal é uma coisa para uma realidade que não é possível. Mas existem alguns fatos importantes sobre isso: nos primeiros dias de fato é importante deixar a livre demanda, quando o bebê quiser ele pede e mama porque o aleitamento materno ainda está sendo estabelecido e o pequeno ainda está criando um padrão de sucção. Depois de umas duas semanas é preciso saber que se o bebê mal saiu do peito e já quer de novo, ou mama em menos de 1 hora e meia, pode ser um sinal de que talvez ele não esteja sugando corretamente e, se ele não suga corretamente não faz o esvaziamento da mama, o que pode gerar empedramento ou diminuição da produção do leite. E vai virando uma bola de neve….