Julyana Mendes
Mãe do Pedro Henrique, Luís Felipe, João Eduardo, Maria Carolina, Maria Eduarda, Maria Fernanda, Maria Beatriz
♥ "Só que dessa vez ele segurou meu rosto e enfiou a língua na minha boca. Não! Nessa hora reagi! Empurrei e disse não! Ele olhou para mim, deu uns tapas no meu rosto e disse: “Que isso Ju! Um beijinho camarada!”"
06.04.2016 - Estou aqui para dividir com vocês a história do tratamento que fiz para ter minhas filhas, minha experiência nada agradável no meio do processo: uma parte da minha vida que pode servir de alerta para outras mulheres.
Para chegar a esse momento, preciso voltar um pouco no tempo. Em janeiro de 2006 eu estava grávida do meu terceiro bebê e ansiosa para saber o sexo. Na época já tinha Pedro com 12 anos e Luís Felipe com 2. Óbvio que uma menina era mais que esperada.
Fui abusada pelo médico no tratamento de gravidez
No dia da consulta de 13 semanas meu médico afirmou que eu estava grávida de uma menina. Uma alegria só! Comprei um vestido logo depois, acreditem! E imaginei um mundo cor de rosa entrando na minha vida. Conto isso para vocês terem a ideia da frustração que tive quando na consulta posterior o médico me disse que outro menininho estava a caminho. Não posso mentir. Chorei. Fiquei triste. Mas passou no mesmo dia quando decidi que : "Tudo bem. A minha menina vem. Nem que eu faça um tratamento." Já na época eu tinha ouvido falar de uma famosa clínica em SP que fazia sexagem fetal*. Pronto. Estava decidido. E decidida, curti a gravidez do meu lindo João.
"Tudo bem. A minha menina vem. Nem que eu faça um tratamento."
Nos 2 anos seguintes, eu tive certezas e tive dúvidas. Muitas vezes amava me sentir a rainha no meio de tantos homens. Filhos lindos e amados. Precisava mesmo de mais um bebê? Mas vinha sempre aquela vontade do laço, do cor de rosa, da boneca.
Então, em 2008, resolvemos que iríamos sim, conhecer a tal clínica e entender como isso tudo funcionava. O médico tinha um poder de persuasão tão grande que fui conhecer o processo e saí de lá medicada.
"O médico tinha um poder de persuasão tão grande que fui conhecer o processo e saí de lá medicada."
O tratamento é como todo tratamento de fertilização. Mexe com tudo. São hormônios. Você incha, engorda, altera humor. É caro e trabalhoso. Muitas injeções, muito remédio.
O protocolo da clínica pedia que 10 dias antes eu estivesse em São Paulo para que diariamente eu fizesse exames de sangue e acompanhasse a quantidade de óvulos.
Imaginem! Ficar 10 dias longe dos três meninos? Mas precisava, e eu fui.
Não sei quantas de vocês conhecem como funciona uma FIV. Mas eu tomei remédios para estimular o ovário a produzir muitos óvulos. No dia da captura desses óvulos eu precisava ser anestesiada para o procedimento. E assim aconteceu.
Só que quando acordei algo estranho estava acontecendo. O médico estava me beijando. Sim! Na boca! Como estava acordando de uma anestesia, a primeira impressão que tive foi que estava alucinando. Ele saiu do quarto e eu me perguntava o que estava acontecendo. Aquilo para mim era um pesadelo. Que piorou.
"O médico estava me beijando. Sim! Na boca!"
Sem muita noção de tempo, fiquei ali martelando, tentando saber se era realidade ou fantasia, até que ele entrou de novo. Só que dessa vez ele segurou meu rosto e enfiou a língua na minha boca. Não! Nessa hora reagi! Empurrei e disse não! Ele olhou para mim, deu uns tapas no meu rosto e disse: “Que isso Ju! Um beijinho camarada!”
"Ele olhou para mim, deu uns tapas no meu rosto e disse: “Que isso Ju! Um beijinho camarada!"
Juro para vocês que esses tapinhas no meu rosto foram mais agressivos que o beijo que ele tentou me dar!
Com a minha reação ele saiu do quarto. Desesperadamente procurei meu celular. Estava de roupão, sabe aqueles de hospital com aberturas? Nua por baixo e sozinha num quarto.
Quando encontrei meu telefone liguei para meu marido na época e perguntei por ele. Estava na recepção. Ele entrou no meu quarto junto com o médico que se comportou como se nada tivesse acontecido. E eu? Fiz o mesmo!
Gente, eu estava assustada, sem entender nada e só me veio na cabeça uma coisa: daqui a dois dias vou implantar minhas meninas. Se eu conto, o marido não deixaria eu voltar lá e tudo estaria perdido. Tudo pago, meu sacrifício, as injeções, tanta coisa para nada? Calei.
Saí da clínica vomitando, mas nada disse.
Voltamos dois dias depois e implantamos dois embriões femininos.
Eu estava péssima, tive
hiperestimulação ovariana, fiquei inchada, tive
ascite: tirei 4 dias depois, 2 litros e meio de água do abdômen. Resultado: não engravidei.
Aquela altura eu já tinha contado para o marido e na minha cabeça só tinha um pensamento: perdi a chance de ter a minha menina.
Mas decidimos que já que tínhamos pago por três tentativas, voltaríamos com outro médico. O médico abusador estava viajando e o tratamento dessa vez, tranquilo me deu de presente três lindas Marias.
"O médico abusador estava viajando e o tratamento dessa vez, tranquilo me deu de presente três lindas Marias."

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Foi muito, muito ruim me sentir impotente, vulnerável e invadida.
Por isso desejo que essa minha história sirva de alerta. Acredito que seja algo muito raro médicos que se aproveitam da fragilidade dos seus pacientes e os abusam de várias maneiras.
Mas mesmo sendo raro, procurem estar acompanhadas sempre que possível. Eu estava sozinha e fui deixada sozinha de maneira proposital. Chamaram meu marido para fazer outra coisa.
Encaro esse assunto como algo que ele fez de errado. Não eu. Não me sinto culpada, nem envergonhada. A vergonha é dele que hoje cumpre prisão, pois foi condenado por fazer isso com mais de 70 mulheres. Fez até pior com elas, olhando por esse lado acho até que dei sorte.
"Não me sinto culpada, nem envergonhada. A vergonha é dele que hoje cumpre prisão, pois foi condenado por fazer isso com mais de 70 mulheres."
Optei por não processá-lo junto com as outras pois estava com minhas trigêmeas muito bebês e sabia que a justiça estava sendo feita por outras.
O importante para mim era pensar que apesar de tudo, eu tive as minhas tão sonhadas filhas. De maneira irresponsável a equipe dele implantou três embriões em mim, sendo que já tinha três cesáreas. Tive trigêmeas prematuras extremas que ficaram mais de 70 dias na UTI. Mas isso é história para outra vez...

Meu nome é Julyana Mendes. Hoje sou mãe de sete. Minha última filha foi resultado de um tratamento também. Dessa vez com médicos corretos. Mesmo assim procurei estar sempre acompanhada! Então fiquei em paz o tempo todo. E podem ter certeza. Essa paz faz toda a diferença!
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*Segundo a
RESOLUÇÃO CFM nº 2.121/2015 "As técnicas de Reprodução Assistida não podem ser aplicadas com a intenção de selecionar o sexo (presença ou ausência de cromossomo Y) ou qualquer outra característica biológica do futuro filho, exceto quando se trate de evitar doenças do filho que venha a nascer". A escolha do sexo é uma questão de ética médica e não prevista em nossa Constituição Federal, sendo assim, não é considerado crime.
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