Minha experiência como mãe de uma menina trans

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A Mãe Amiga Elaine
Ao abrir o uso do banheiro feminino da escola para minha filha trans, conforme diz a lei na resolução 12 de 2015, mães de colegas de sala ficaram preocupadas, pois assim como minha filha nascida menino  (9 anos),  frequentaria o banheiro feminino, outras alunas trans, que entrassem na escola, de idade maior, também teria o mesmo direito (garantido por lei), e isto compreendo que significa  para elas um menino desconhecido, que se veste de menina, no mesmo banheiro que suas filhas pequenas, e concluo que veem como risco de abuso e violência.
As mães no geral, desconhecem sobre identidade de gênero, principalmente sobre os casos em que a criança começa a apresentar esta demanda muito nova, como o caso da minha filha, que ao começar a falar já expressava interesses de gostos femininos, sem contar nas demonstrações quando ainda bebê.
Aberto esta questão no grupo de Whatsapp dos pais da sala de minha filha, sendo considerado a decisão de vesti-la de menina uma decisão minha e de uma hora para outra, respondi as colocações aos familiares descontentes, que partilho aqui com vocês.
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Primeiro agradeço sua abertura e colocação dos seus pontos de vista e te parabenizo nesta exposição ao grupo, e por me dar a oportunidade de te contar um pouco do que estamos passando e passamos.
Se você puder assistir a reportagem “meu eu secreto”, disponível no youtube, será uma oportunidade de olhar o nosso lado, e te agradeço.Montei um blog pra juntar material que fui garimpar pra tentar abrir minha cabeça pra esta realidade latente que vivencio desde que a Mi começou a falar e simmmm eu desejava muito que fosse uma fase, e te conto:
Sim, eu escondia muitas vezes os brinquedos de menina que minha irmã a dava, de tanto ela pedir. Sim, eu não deixava ela brincar por muito tempo com minhas roupas ou sapatos, porque não queria incentivar. Sim, tinha hora que me dava até raiva de não ter como controlar o desejo dele vivenciar o mundo feminino e Simmm tive que abrir minha cabeça e enfrentar o que possivelmente os outros poderiam falar, quando resolvi parar de lutar contra e aceitá-la como ela é.Risco de mutilação de penis aos 3 anos, em vários momentos. Fala sobre a vida não ter sentido, pois afinal de contas, ela não podia ser quem era. É,  fala de morte desde muito nova. Fala sobre a não existência de Deus, pois afinal, se Deus existisse não a teria feito errado... se Deus existisse, atenderia seu pedido diário de acordar menina. Tudo isso me fez decidir, de uma hora pra outra, parar de rejeitar a possibilidade e escolher ter minha filha como ela é. Pra uma pessoa com vontade contida de não poder ser feminina, quando baixei a guarda e falei te prefiro viva e feliz do que depressiva, ela sim quis exagerar pra ser vista e reconhecida como menina, e sim exagerou em maquiagens e enfeites de cabelo e simmm me pediu unhas postiças e falei e falo, - "não é porque você agora é menina, que você vai usar coisas que eu não deixaria minha filha nascida menina usar", e simmm não comprei e não comprarei unhas postiças, mas pintarei os toquinhos dela um de cada cor, com brilho incluso, como ela pede...para assim trabalhar a auto estima de uma maneira tranquila. Ficar na evitação já vi que não funciona, mas o meio termo sim. A partir do momento que ela pode se sentir aceita como menina, as demandas por maquiagem e laços no cabelo pararam, mas mesmo assim, como tenho uma amiga que trabalha com cosméticos, pedi ajuda pra ela, em aula de maquiagem pra Mi, para não ficar uma imposição minha no controle da make e sim uma fala e orientação de quem entende. Ontem à Mi reconheceu uma jovem maquiada como a maquiagem de drag, por estar muito carregada, porém elegante, e fiquei contente dela começar a perceber as diferenças.
Quando descobri que Pabllo Vittar era drag e não trans fiquei contente rs... fui falar pra ela e me respondeu, não sou como a Pablo porque sou menina o tempo todo, não só pra apresentação.
Estamos aprendendo e te falo que o começo foi extremamente difícil. Chorei muito, o pai sofreu absurdo, mas hoje estamos melhores. Busquei apoio em vários lugares e inclusive pedi pra escola na primeira semana que ela foi de menina, para fazer uma reunião com os pais, sugeri levarem profissionais, mesmo eu, na minha fase de enfrentamento, e a escola preferiu trabalhar de uma maneira gradativa, conforme as demandas fossem chegando e assim estarão fazendo, eu respeito. Participo de grupo de mães de transgênero e de grupos mães LGBTs, que são preparadas para falar, pois tem muito conhecimentos, os filhos já são adultos. Me dispus a pedir palestra com os médicos da unicamp do grupo de apoio às famílias com filhos com questões a identidade de gênero, quando a escola quiser, pedirei. A psicóloga que estou indo, que tem experiência com transgênero, está à disposição da escola e a escola agendará uma conversa com ela. A psicóloga infantil da Mi também está à disposição pra este trabalho em conjunto, e a escola já está com todos os contatos. Agradeço sua exposição e coragem por abrir este espaço para eu poder falar um pouco. É legítimo seus medos e cuidados com relação ao melhor pra sua filha, assim como tenho meus medos e cuidados com a minha, que já teve que lidar muito com estas questões sozinha, agora estou com ela e o pai também. Ficarei muito feliz em poder conversar pessoalmente com vc, de verdade, pois já tive muita resistência e sei que é difícil. Ahhhh do banheiro, pedi pra escola avaliar um meio termo porque minha preocupação é que a Mi volte ao desespero de querer exagerar em maquiagem e enfeites pra mostrar q ela é menina , num enfrentamento por ser obrigada a usar o banheiro masculino.... apesar dela falar que vai segurar porque não quer usar o banheiro dos meninos, o que é muito comum acontecer com transgênero quando o meio não se adequa a realidade do indivíduo, infelizmente, pois é um prejuízo grave a saúde. Estou conversando com ela, explicando que banheiro é só banheiro, apesar do medo de assédio, abuso, brincadeiras de mal gosto, que pode correr no banheiro 100% masculino que inclusive adultos usam no Sítio. Confio na escola e acredito que encontraram um meio termo pra minha filha.